No meu texto anterior sobre o
fascínio a sensação de escravidão produzidos pelas
redes sociais, escrevi que o
livro de onde tirei as informações tinha sete capítulos. Minha ideia inicial era escrever um texto a cada capítulo, mas o segundo (e creio que o mesmo acontecerá com os outros) é tão rico de conceitos importantes que achei mais didático subdividir os textos um pouco mais.
Reparei que no final do primeiro texto eu não havia trazido o que é afinal, segundo Cal Newport, o tal
minimalismo digital. Então, segue o conceito abaixo:
Uma filosofia de uso da tecnologia em que o período online é dedicado a uma pequena quantidade de atividades cuidadosamente selecionadas e otimizadas de maneira que satisfaçam objetivos predeterminados e dispensem todo o resto do conteúdo.
Essa filosofia determina, desde o princípio, quais ferramentas digitais permitimos em nossa vida, por quais razões e sob quais restrições, além de ser baseada em implícitas e constantes análises de custo-benefício do uso dessas ferramentas, o que fará com que os usuários se mantenham sempre conscientes em relação ao modo como as usam.Cal Newport começa o segundo capítulo elencando três princípios básicos do
minimalismo digital. Ater-me-ei ao primeiro e a um argumento que o justifica, pelo motivo já descrito no primeiro parágrafo. Ei-los:
1º Princípio: A bagunça custa caro. Os minimalistas digitais percebem que muitos dispositivos, aplicativos e serviços desviam nosso tempo e atenção e têm um custo que neutraliza os pequenos benefícios que cada um provê isoladamente.
O argumento que justifica o princípio começa contando a história de Henry David Thoreau, um escritor, poeta, naturalista, pesquisador, historiador e filósofo e norte-americano que escreveu
Walden, em que ele se propõe a experiência de viver em meio à natureza com o mínimo possível, materialmente falando.
Tirando a parte bucólica que certamente há no livro (que eu não li, mas que me deu vontade, caso não houvesse outros 28 na fila), a parte que serve como argumento para Cal é o primeiro e maior capítulo do livro, chamado "Economia", que traz tabelas que mostram o custo mensal para se ter as necessidades básicas de um ser humano atendidas em Walden Pond: alimentação, abrigo, aquecimento, etc.
Thoreau, então, calcula quantas horas precisaria trabalhar, com base nessas tabelas, para ganhar dinheiro suficiente para viver com o mínimo de conforto.
A conclusão do escritor é surpreendente: trabalhar 1 (um) dia por semana seria suficiente!Entretanto, o que é interessante na conclusão de Thoreau não são os cálculos, mas sim a transposição do foco da frieza da matemática para a acalorada discussão sobre a melhor forma de gestão do tempo possível, caracterizada pela pergunta feita por Cal:
O quanto de tempo Thoreau deveria sacrificar para viver com mais que o mínimo necessário?É óbvio que eu não estou propondo a você, amigo leitor, viver como um eremita, nem mesmo como um eremita digital, até mesmo porque a realidade de 1845, quando Thoreau escreveu o livro, é totalmente diferentes da dos nossos dias. Entretanto, convido-o assim mesmo a fazer uma reflexão:
Os likes trocados e as notícias lidas nos trazem benefícios proporcionais ao tempo que gastamos realizando essas atividades?Aqui trago-lhe as
minhas respostas, que podem ser diferentes das
suas e que, por esse mesmo motivo, servem apenas para iniciarmos um debate sobre o tema: para mim, a resposta é
absolutamente não, porque ou as notícias são falsas (mentira, ó, magnânimo Imperador de Banânia, amo tanto a Mônica Blerghamo quanto a Míriam Leitoa) ou são
transnoticias, ou seja, opiniões que acordaram hoje se sentindo notícias. Pior, há grande chance das "noticias" serem as duas coisas... e em relação às redes sociais, quem nuca deu um
like num conteúdo sem nem mesmo lê-lo, que atire o primeiro
dislike...
Claro que a quantidade de tempo de que cada um está disposto a abrir mão para ter o prazer de ler os textos da Verba Migalhães varia de pessoa para pessoa, mas o que importa aqui é a reflexão sincera sobre se estamos ou não usando nosso tempo da melhor forma possível.
Afinal de contas, como diz Sêneca, em
Sobre a brevidade da vida: "
É fácil gerir aquilo que, apesar de exíguo, é certo; com mais cuidado se deve conservar o que não se sabe quando irá faltar".
Um abraço e até a próxima!