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Solidão: Vilã ou mocinha?

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sábado, 18 de fevereiro de 2023 - 17:25
Depois de começarmos a Faxina Digital, constatamos que o tempo, que antes parecia faltar para a enorme quantidade de aplicativos e redes sociais a checar, começou magicamente a dar para tudo e ainda sobrar. Só que essa sobra pode gerar angústia se não for preenchida com o que Cal Newport chama em seu livro Minimalismo Digital de "Lazer de alta qualidade".

O autor dá algumas opções desse tipo de entretenimento nutritivo para a alma, que serão detalhadas neste e nos próximos artigos, bem como exemplos de pessoas famosas que os adotaram com sucesso. A primeira sugestão é que o candidato a minimalista passe um tempo sozinho, pois segundo Newport, essa atitude estimula os pensamentos, contribuindo, assim, para um clareamento da mente.

Um ilustre adepto dessa prática foi Abraham Lincoln, presidente norte-americano de 1861 a 1865, tido por muitos como um dos melhores presidentes daquele país. Suas escapadas para um chalé isolado, denominado Lar do Soldado, certamente contribuíram para a qualidade das decisões tomadas pelo mandatário, algumas delas tão urgentes quanto difíceis, tendo em vista a Guerra de Secessão, que ocorria justamente neste período, logo no início de seu mandato.

Cal relata que provavelmente foi nessa cabana que foi escrito o famoso discurso de Gettysburg, em que o presidente definiu o final da Guerra como início de um "Governo do povo, pelo povo e para o povo", compilando notas que ele escrevia no caminho de trem da Casa Branca para o Lar do Soldado.

Entretanto, a solidão de Lincoln não era propriamente física, pois apesar de relativamente distante da Casa Branca, o chalé contava com forte presença de militares que protegiam seu ilustre habitante. Portanto, o fato do isolamento de Abraham ser mental mostra que qualquer pessoa pode tanto se sentir isolada no meio de uma multidão quanto estar fisicamente sozinha e não conseguir impedir que sua mente seja refém da interferência de outras mentes.

Cal relata que a solidão para reordenação dos pensamentos nem sempre exige quietude corporal. Prova disso é Michael S. Erwin, ex-militar e autor do livro "Lead Yourself First". Erwin conta que costuma fazer longas corridas pelos campos de milho de Michigan. "Correr é mais barato que terapia", brinca Michael, aproveitando para argumentar que o clareamento das ideias vindo do isolamento faculta novas percepções e propicia um maior equilíbrio emocional.

Outro ilustre apreciador do isolamento foi Blaise Pascal, matemático, filósofo, inventor, teólogo e escritor francês. O iluminista levava a necessidade de isolamento voluntário tão a sério que declarou que "Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho em uma sala", opinião corroborada por Benjamin Franklin, que escreveu que "reconhecia a solidão como uma agradável renovação da mente ocupada", e também pelo historiador Edward Gibbon, que disse que "O diálogo enriquece o entendimento, mas a solidão é a escola da genialidade".


Michael Harris, autor do livro "Solitude", declara que, por mais paradoxal que pareça, passar um tempo sozinho "promove uma maior proximidade com os outros, reforçando as conexões interpessoais, quando elas acontecem".

Malefícios da privação de solidão

Quando as pessoas estão com seus smartphones, não estão mentalmente sozinhas, pois o aparelho toma o espaço que deveria ser preenchido pela reflexão meditativa. Entretanto, o equipamento não é o único ladrão da nossa acuidade mental, pois a feminista Virginia Wolf já dizia em 1929 que "A solidão não é uma diversão aprazível, mas uma forma de libertação da opressão cognitiva que resulta de sua ausência". Nos dias de hoje, entretanto, é inegável que nosso celular é quase sempre o "mordomo de filme de mistério", porque aquela "espiadinha" nas redes sociais e a dopamina fácil que advém desse ato estão sempre ao alcance da nossa mão.

Adam Alter, autor do livro "Irresistível", resolveu mensurar o seu tempo de tela, através de um aplicativo chamado Moment, e tomou um choque quando viu o resultado: ele recorria ao aparelho 40 (quarenta) vezes por dia, perfazendo um total de 3 horas nessa atividade. Isso porque a consciência da presença do aplicativo "espião" provavelmente fez com que o escritor diminuísse o tempo nessa atividade. O tempo real, sem o Moment para espioná-lo, provavelmente seria ainda muito maior!

Pesquisas recentes revelam que a faixa etária mais impactada pela provação de solidão é – como qualquer pai pôde adivinhar – a dos adolescentes, que chegam a ficar conectados 9 horas por dia. Não por acaso essa faixa etária também é a que apresenta maior índice de crescimento de casos de transtornos mentais diversos, que vão desde a ansiedade até o suicídio.

A probabilidade da correlação entre esses dois fatos é enorme, uma vez que os indivíduos pesquisados nasceram de 1995 para cá, tendo entrado na adolescência justamente no início da popularização dos smartphones, coincidência que não aconteceu com nenhum dos outros fatores geradores de estresse, que sempre existiram.

A correlação é tão difícil de negar que o jornalista Benoit Denizet-Lewis publicou um artigo na revista do New York Times que informava que os próprios jovens concordaram com os achados da pesquisa.

Isto não quer dizer que os adolescentes são o único alvo do instinto assassino dos smartphones. Os adultos são afetados pela privação de solidão de formas mais sutis, tais como, por exemplo, as preocupações com a economia, a polarização política, a insegurança jurídica reinante no Brasil e no mundo, etc.

Finalizando, é importante desfazer qualquer impressão errônea de que se deve procurar a solidão para virar um eremita, um monge tibetano. Pelo contrario, ao incrementar a qualidade de nossas reflexões, o isolamento melhora nossas interações sociais, porque combate os efeitos negativos que a falta de solidão causa; são baratos, porque não requerem lugar nem preparação especial. Além disso, a solidão voluntária é apenas parte de um ciclo alternado de isolamento e interação e nunca um isolamento completo, pois como já dizia Aristóteles, o homem é - para o bem e para o mal, diria eu - um animal social.

Um abraço e até a próxima!

Fonte: Coelho de Programa

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