Continuando a
série de artigos sobre o Minimalismo Digital, Cal Newport, autor do
livro homônimo, nos traz duas formas de lazer que, apesar de não serem novas, andam meio "esquecidas", soterradas sobre a avalanche de aplicativos e redes sociais.
A satisfação de construir
A primeira já foi levemente abordada no texto anterior, sobre formas de recuperar o lazer ativo: o retorno da satisfação em construir algo. O autor frisa que no contexto do
Minimalismo Digital "construir" tem um significado mais amplo, englobando tanto coisas do "meio físico", como uma mesa, uma cadeira ou uma prateleira, como do "mundo digital", como construir um programa de computador ou um site, embora veja as construções do mundo digital com algumas restrições, que veremos a seguir.
Como quem acompanha a série já sabe, Cal usa exemplos de pessoas que adotaram com sucesso as práticas sugeridas por ele como argumentação para provar sua eficácia. O primeiro exemplo dos benefícios da ação de construir é Gary Rogowsi, um fabricante de móveis de Portland, Oregon, que publicou em 2017 um livro chamado "
Handmade: Creative Focus in the Age of Distraction" (Feito à mão: Foco criativo na Era da Distração), que traz a história do artesão, um enfoque filosófico sobre a própria atividade do artesanato e também uma exposição do contraste dos benefícios desse tipo de lazer em detrimento das diversões digitais dos nossos tempos atuais.
Um dos argumentos usados pelo artista é que temos uma necessidade psicológica de colocar as mãos em ferramentas e produzirmos algo com elas, chegando mesmo a afirmar que sem isso não nos sentimos completos, pois nossa evolução se deu enquanto manipulávamos – e tateávamos, acrescento eu – o mundo físico ao nosso redor, mostrando a existência de uma estrutura cerebral complexa projetada para nos facultar essa habilidade de manipular o mundo.
Rogowsi aproveita para lamentar o fato de estarmos limitando o uso do sentido do toque ao ato de rolar uma tela, o que, como já foi escrito em outros artigos da série, causa uma subutilização do nosso cérebro. Não é à toa que nos sentamos para "
dar uma olhadinha no InstaGramsci" e quando "acordamos" já se passaram duas horas...
Outro personagem do capítulo é
Matthew Crawford, filósofo com PhD em Filosofia Politica e que largou um emprego em Washington para abrir uma oficina de motocicletas e dedicar-se ao ofício de mecânico, mas mantendo o seu elo com a filosofia através de textos que escreve quando não está construindo motos personalizadas.
Ele explica as vantagens obtidas da aparentemente brusca mudança, argumentando que as vitórias no campo da construção têm um impacto
real no mundo físico: coisas como "
a moto agora funciona", "
pode se sentar na cadeira" ou "
as luzes estão acesas" contam com o julgamento da tangibilidade, ao contrário das realizações no mundo virtual, que, segundo ele, não passam de "
ostentação de um menino".
Crawford fala ainda sobre um fato que já foi abordado
neste texto: as redes sociais como fonte substituta (e precária) de engrandecimento pessoal, reafirmando sua preferência por fontes mais profundas de orgulho, como as construções "físicas".
Embora reconheça a evidente vantagem de se escrever um programa de computador sobre gastar a tarde dando
like em vídeos de gatinhos ou lendo notícias inúteis, e embora tenha classificado a atividade de programação como construção, Cal salienta que o foco da construção deve ser o mais físico possível. E é exatamente por este motivo que a segunda lição para a recuperação do lazer é:
"
Use suas habilidades para gerar valor no mundo físico."
Intensifique a socialização
Além da atividade de construir, o guru do
Minimalismo Digital lista outros tipos de atividade
off-line como excelentes opções. Um exemplo são os jogos de tabuleiro, cuja popularidade vem retomando os níveis que tinham nos anos 80 (Alguém lembra de Elliot jogando
Dungeons & Dragons com seus amigos no filme E.T?). O autor conta que David Sax, que escreveu o livro "
The Revenge of the Analog", relata o caso de uma lanchonete que trouxe a "novidade" e por conta dela, agora tem longas filas de espera: a Snakes & Lattes.
Outra opção apontada por Newport é o que ele chama de "Fitness social", onde as pessoas trocam uma atividade física isolada em uma academia por exercitarem-se num estúdio ou até mesmo na rua, obtendo não só a melhora do condicionamento físico, mas também muitas vezes suporte emocional, através do contato com pessoas com os mesmos objetivos e dificuldades.
O melhor exemplo de fitness social é o
crossfit, um local com aparência e aparelhos de academia de box antiga, sem Wi-Fi nem fone de ouvido e onde você nunca executa seus WOD (Workout of the day) sozinho. Os treinos em conjunto reforçam laços de camaradagem entre os participantes, que sempre torcem muito uns pelos outros.
Newport cita outros tipos de lazer de alta qualidade, tais como atividades voluntárias de caridade ou um projeto de benfeitoria no bairro.
As características em comum das atividades sociais bem-sucedidas são: exigem que você passe mais tempo off-line com outras pessoas e fornecem estrutura à interação social, como regras, jargões, rituais e um objetivo comum, o que paradoxalmente, dá aos participantes mais liberdade de expressão: pense em você berrando e torcendo por seus parceiros num box de Cross Fit.
Finalizando, a terceira lição é:
"
Busque atividades que exijam interação social estruturados no mundo real".
Um abraço e até a próxima!