Quem vem acompanhando a série de
artigos sobre Minimalismo Digital já percebeu que a filosofia contida no
livro de Carl Newport é simples (o que nem sempre é sinônimo de fácil):
entender e aceitar que somos escravos das tecnologias, envidar esforços conscientes e constantes para limitar seu uso ao mínimo possível e preencher o tempo que sobrará dessa limitação com atividades de alta qualidade.
O que o livro faz a mais – de forma brilhante, diga-se de passagem – é não só dar sugestões de atividades significativas, mas também justificar sua sugestão dando exemplos de pessoas bem-sucedidas que usaram com sucesso essas atividades.
A sugestão que o Guru do
Minimalismo Digital traz para hoje é:
faça longas caminhadas, conselho adotado por ninguém menos que Nietzsche, de quem se pode discordar ou concordar, mas cuja importância para a Filosofia é inegável. Em um livro chamado "Crepúsculo dos ídolos" há um capítulo só com aforismos. Um deles diz: "
Só pensamentos que surgem em movimento têm valor. A pachorra é justamente o pecado contra o Espírito Santo". O filósofo prussiano levava tão a sério o conselho que Frederic Gros, filósofo francês da atualidade, conta que num determinado período, Nietzsche chegou a caminhar oito horas seguidas, anotando seus pensamentos em seis pequenos cadernos, que depois deram origem ao livro "
O viajante e sua sombra".
Outros caminhantes inveterados eram o poeta francês Arthur Rimbaud e o iluminista Jean-Jacques Rousseau, que declarou: "
Não faço nada sem estar caminhando; o campo é meu escritório." Gros diz ainda sobre que Rousseau que "
A simples visão de uma mesa e uma cadeira era suficiente para fazê-lo sentir-se mal". Outro caminhante conhecido (pelo menos de quem vem acompanhando os textos dessa série sobre
Minimalismo Digital) é Henry David Thoreau, que classificava a atividade como "
nobre; o empreendimento, aventura do dia".
Carl observa que embora os objetivos com a caminhada fossem ligeiramente diferentes (Nietzsche, por exemplo, começou a caminhar para se livrar de recorrentes enxaquecas), o pano de fundo das passadas dos personagens é igual: servir não como mero exercício físico (apesar de seus evidentes benefícios), mas principalmente como fonte de solidão, que, como já foi descrito
neste texto, é necessária para uma maior clareza mental.
Com a crônica falta de tempo, decorrente do ritmo alucinante da vida moderna, resta óbvio que poucas pessoas possam se dar ao luxo de caminhar por oito horas seguidas. Isso faz com que quem quer perseverar na tentativa muitas vezes se veja obrigado a "ir caminhar na hora que dá". Só que às vezes São Pedro pode ter outros planos... isso obriga os caminhantes a flexibilizar o conceito de "tempo bom" para caminhadas. Sim, devemos nos lembrar sempre que as grandes mudanças requerem
sempre uma dose de desconforto. Entretanto, uma boa roupa de frio ou de chuva (bem como uma dose extra de força de vontade) resolvem bem o problema. Mas, o "sacrifício" é sempre válido, pois como nos lembra o autor americano, quanto mais longas forem as caminhadas, maiores serão seus benefícios.
Um fator extremamente importante a ser considerado é
a sua família. Passar longe dela uma boa parte do seu pouco tempo livre certamente irá requerer alguma negociação, para que todos saiam ganhando com a mudança de estilo de vida do candidato a minimalista digital.
O escritor também salienta que o número de horas - que sempre varia, de acordo com o estilo de vida de cada um – é o menos importante. O que importa, no frigir dos ovos, é a atitude de buscar consciente e consistentemente o que Nietzsche chamava de "solidão produtiva".
Uma última (mas não menos importante) recomendação, que o leitor a esta altura já deve ter "adivinhado" qual é, mas que Newport faz questão de dar explicitamente:
ir sozinho também significa ir sem seu smartphone, ou, na impossibilidade disso, levá-lo num bolso ou mochila, firmando o compromisso de só usá-lo em caso de emergência. Afinal de contas, a solidão que se quer alcançar não é meramente
física, mas principalmente
psicológica. Trocando em miúdos: obviamente não conseguiremos atingir essa solidão se ficarmos checando o InstaGramsci ou o Foicebook a cada cinco minutos...
Um abraço e até a próxima!