
Por
Alex Nichols, para o site
IRunFar.com
Nas semanas que antecederam o
Mont Blanc 80k 2015, que começa e termina em Chamonix, França, eu estava nervoso. Naquele ponto da minha carreira de
trail running, eu havia feito algumas corridas na faixa de 80 quilômetros, mas nunca havia corrido nenhum percurso que tivesse os 7.000 metros de ganho de elevação que essa prova teve. No ano anterior, o recorde do percurso foi estabelecido por
Luis Alberto Hernando em 10 horas e 25 minutos como parte do Campeonato Mundial de Skyrunning. Mesmo no meu melhor dia, eu estaria correndo pelo menos 10 horas. Isso seria cerca de três horas a mais do que eu já havia corrido até então.
Para controlar meus nervos ao atravessar esse território de corrida desconhecido, decidi dividir a prova em segmentos menos assustadores. Configurei meu relógio para segmentos de 16 km. Em vez de sentir que estava correndo para o desconhecido, disse a mim mesmo que só precisava passar por cinco segmentos separados de 16 quilômetros. Se eu pudesse correr cada segmento no mesmo ritmo, então eu sabia que me sairia bem.
Às 4:00 da manhã, começamos a prova em uma escuridão silenciosa. Uma lua quase cheia iluminava o pico nevado do Mont Blanc do outro lado do vale enquanto serpenteávamos até o topo da primeira subida. O sol nasceu, eu me lembrei das próximas horas e controlei meu esforço. As horas passavam e meu relógio zerava. Quando dei por mim, estava correndo na liderança com
Andy Symonds e
Franco Collé. No terceiro segmento, eu ainda estava me sentindo bem e confiante de que poderia terminar a prova forte. Eu tinha 32 km mais tranquilos para percorrer, apenas dois segmentos de 16 km restantes. Dei uma forçada na penúltima grande subida e estabeleci um espaço para Franco. Uma onda de adrenalina passou por mim quando comecei a acreditar que uma vitória era possível.
Eu estava na frente, numa subida no sereno Chamonix Valley, quando um helicóptero da prova surgiu atrás de mim. Presumi que eles estavam filmando a prova, então continuei correndo. Finalmente eu atraí a atenção de um passageiro acenando furiosamente e apontando para trás de mim. Uma percepção me atingiu como um tijolo: eu havia saído do percurso na última encruzilhada. Eu havia acrescentado uma subida e cerca de 800 metros de distância extra. Eu estava chateado, agitado e convencido de que tinha acabado de perder a prova. Depois de algumas passadas de volta para o percurso, verifiquei meu relógio e percebi que ainda tinha cerca de quatro horas de prova se estivesse no ritmo recorde do percurso. Eu poderia ter perdido a liderança e algum tempo, mas poderia compensar se corresse concentrado.
Eu podia ver Franco à minha frente na trilha que eu havia deixado. Ele havia ganho alguns minutos de vantagem sobre mim, mas não estava fora de alcance. Na penúltima descida, apertei o passo e consegui passar por ele mais uma vez. Meu relógio apitou uma última vez indo para o último posto de apoio. Eu tinha 16 km com uma grande subida e descida restantes. Corri com medo, mas quando voltei às ruas de Chamonix e à linha de chegada, estava sozinho.
Esta prova foi um treino de paciência. Foi a minha prova de tempo mais longo, e foi ainda mais longa devido à curva errada, mas ainda assim foi um sucesso por causa da paciência constante. Esteja você correndo 10 km pela primeira vez ou 100 km, manter a paciência no início da prova ou quando as coisas dão errado pode ser extremamente difícil.
É difícil julgar nosso esforço no início de uma prova quando é uma distância ou tempo maior do que já corremos antes. Como fiz com meus segmentos, dividir uma nova distância em pedaços menores pode ajudar a abordá-la de maneira mais paciente. Também pode ajudar a manter a motivação, fornecendo objetivos e recompensas menores dentro do quadro maior da prova.
As provas nem sempre precisam ser divididas em distância. Você pode fazer a mesma coisa com segmentos baseados em tempo, distância entre estações de apoio ou pontos de referência com base no perfil do percurso. Dividir a prova em partes pode ajudar tanto a ver o quadro geral quanto a manter o foco no presente.
Em todas as provas que fiz, de 5 a 80 km, sempre houve altos e baixos. Uma prova nunca vai ser perfeita. Essa inconsistência é algo para o qual podemos nos preparar para não sabotar o dia inteiro. Quando as coisas derem errado, tente pensar no quadro geral. Mesmo se você perder um posto de apoio ou sair do percurso, sempre há tempo para corrigir o problema se desacelerarmos e considerarmos a situação no contexto mais amplo da prova. Respire e não entre em pânico. Se você está em um segmento "em baixa" na prova, tenha paciência, tenha fé que vai melhorar e espere a próxima "alta" acontecer.
A paciência é uma habilidade valiosa que pode levar tempo para se desenvolver. Começar com algumas ferramentas simples, como compartimentar um novo desafio e estar preparado com antecedência para contratempos que estão fora de seu controle, pode ajudar a utilizar a paciência para ter um melhor desempenho. Nas provas e até nos treinos, a paciência pode nos ajudar a enfrentar novos desafios e realizar coisas que antes pareciam impossíveis.