Ao ter a ideia de escrever esse texto, fiquei em dúvida se deveria classificá-lo na aba de "
estudos" ou "
blog" do site. Decidi colocá-lo em "estudos" apenas para facilitar o acesso do leitor a outros com as mesmas palavras-chave, embora seu conteúdo seja bem ao estilo
meu-querido-diário (que eu tenho e onde eu deveria escrever com mais frequência, ao invés de perder tempo com discussões infrutíferas no
zapzap).
Dito isto, entremos no motivo do texto. Ainda procurando dar algum ordenamento à minha vida, comecei a ler "
Terapia de Guerrilha", do famoso (e controverso) Dr.
Italo Marsili. Ou melhor, comecei a reler, porque na primeira tentativa da empreitada, achei-o "internético" demais para o meu gosto. Hoje, com o entendimento um milímetro maior, consigo vislumbrar a ligação entre o psiquiatra carioca e os grandes luminares do pensamento. E é aqui que começa de fato esse texto e acaba a enrolação.
Logo no primeiro capítulo, que versa sobre instalar-se na realidade, há um trecho que diz que "
a conquista de um bem árduo é um movimento do domínio afetivo". Isto vai perfeitamente ao encontro do que diz
Jules Payot, pedagogo e educador francês, numa das frases que mais me impactou nesse meu reencontro com o prazer de aprender: "
A vontade é uma potência sentimental, e qualquer ideia, para agir sobre ela, deve colorir-se de paixão".
No segundo, que trata sobre a necessidade de abandonarmos dois hábitos terríveis, a reclamação e a fofoca, o médico descreve - de maneira simples, para um fácil entendimento mesmo por leigos - a mania de reclamar (meu nome do meio, aliás...) como uma consequência do predomínio do córtex emocional sobre o avaliativo. Além de descrever o mau costume, Marsili prescreve um exercício simples, mas eficaz, não para eliminar o córtex emocional (porque você vai querer tê-lo vivo e operante ao se deparar em uma situação de perigo, por exemplo), mas de colocá-lo à frente apenas nas situações em que isso é necessário, e, nas demais, fazer prevalecer o avaliativo; na hora em que percebermos que o córtex emocional começa a querer nos dominar, prestar atenção em cinco cores e cinco sons diferentes, depois quatro, três, até chegar em um, tirando o foco das emoções e colocando-o nos sentidos, dando, assim, "um tempo" para que o córtex avaliativo tome a frente de novo.
E novamente está lá o elo entre presente e passado, nesse caso com
Sêneca, um dos maiores estoicos romanos, que já nos exortava há dois mil anos: "
O melhor é desprezar de imediato o primeiro irritamento da ira, combater suas sementes e atentar para que não incidamos na ira. [... ]. Aquele primeiro abalo da alma, que a ideia de injúria incutiu, não é ira tanto quanto não o é a própria ideia de injúria. Aquele impulso seguinte, que não apenas recebeu a ideia de injúria, mas a aprovou, é ira, concitação da alma que procede à vingança por vontade e discernimento". É fascinante como o filósofo romano, mesmo sem ser médico, intuiu o funcionamento do cérebro!
No capítulo seguinte, dedicado ao combate à inveja, lê-se um salutar conselho: não olhar para alguém superior a você em algum aspecto esperando uma "mancada" dessa pessoa para cair-lhe em cima, mas sim emular suas boas características, ignorando por completo as más. Mais uma vez lá está a ligação entre o ontem e o hoje, novamente com
Sêneca, que recomendava em cartas a seu amigo Lucínio: "
Tenha nossa alma alguém a quem respeite, por cuja autoridade um segredo seu se torne mais honorável. Feliz aquele não só cuja presença, mas até cuja imagem torna correta uma ação! Feliz quem de tal modo pode nutrir respeito por alguém, que até mesmo ao recordá-lo alcance harmonia e ordem interior! Quem pode respeitar alguém dessa maneira logo deverá inspirar igual respeito".
Mas, afinal, qual raios é o objetivo de relacionar autores tão díspares no tempo quanto
Sêneca e
Italo Marsili?
Para responder a essa pergunta:
Como sabermos se os ensinamentos de um livro têm alguma validade? Eu, enquanto simples curioso, não sei a resposta precisa. Pois é, você veio até aqui para nada? Não, porque o pouco que já andei estudando me forneceu o que me parece uma boa primeira "pista":
se passou pelo crivo do tempo, muito provavelmente é porque tem algo a dizer.Um abraço e até a próxima!