
Por
Sabrina Little, para o site
IRunFar.com
No verão de 2019, competi em uma corrida de 80 km em pastagens e trilhas do oeste do estado de Nova York. Antes do nascer do sol, um grupo de nós se reuniu na linha de partida e tivemos o tipo de conversa em que você diz olá enquanto olha para os pés, para que o farol não ofusque o interlocutor ao se apresentar. Não há contato visual com os faróis. Conversamos apenas pela voz e depois nos reencontramos quando o sol nasce. O apito soou e estávamos a caminho.
A prova foi dura. Nas semanas anteriores eu estava me sentindo um pouco sobrecarregada do treinamento, depois de uma longa temporada e, embora esse sentimento muitas vezes diminua para mim quando o tiro de largada dispara, naquele dia isso não aconteceu. Eu me senti lenta e velha na umidade. Após a primeira das quatro voltas, de 20 km cada, eu sabia que seria um longo dia. Eu provavelmente também estava me levando muito a sério. Corri pelos campos, afundado até os tornozelos em estrume de vaca (isso não é uma metáfora), pensando:
Olhe para a sua vida! Olhe para suas escolhas. Então começou a chover.
Aquela não foi uma chuva de verão. Foi um dilúvio tão grande que o percurso inundou e as chuvas restringiram minha visão de tal forma que eu senti como se estivesse correndo através de um acrílico. A chuva foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Comecei a rir e me diverti muito. E corri forte.
O que salvou minha prova nas pastagens naquele dia foi o humor, ou o alegre reconhecimento do comicamente incongruente da minha situação. Era um traço disposicional que melhorou o desempenho, sem o qual eu poderia ter me desesperado. Acho que existem muitos traços de comportamento como esse, que fazem uma grande diferença na forma como agimos. Eu os chamo de "
Virtudes que Melhoram o Desempenho (N.T: PEVs = Performance-Enhancing Virtues)".
Virtudes
Um tópico perene no campo do atletismo é a maximização do desempenho. Como podemos obter o máximo de nós mesmos para competir bem quando isso realmente importa? Existem muitas maneiras legítimas de fazer isso: diminuindo a quilometragem, ajustando o trabalho de velocidade, refinando a nutrição e a hidratação e talvez até usando tênis especiais com placa de carbono e kits aerodinâmicos, dentro dos parâmetros legais das diretrizes de tecnologia de nossos governantes. Obviamente, existem meios antiéticos pelos quais as pessoas optam por melhorar as performances também. Eles tomam drogas que melhoram o desempenho, cortam percursos ou encontram meios alternativos para obter uma vantagem comparativa às custas de sua própria integridade e da integridade da concorrência.
No entanto, estranhamente, nunca ouvi ninguém descrever o caráter em termos de melhoria de desempenho. Por exemplo, o Atleta X tem uma vantagem competitiva por causa de sua alegria inesgotável diante da dificuldade. Certamente existem certas virtudes, ou excelências adquiridas por nós, que auxiliam um corredor de forma considerável. Estes são os tênis de placa de carbono da alma. São virtudes que melhoram o desempenho. Aqui estão algumas possibilidades:
Alegria
Dependendo de quem você pergunta, a alegria é definida de maneiras diferentes, e Tomás de Aquino descreve a alegria como um "
ato ou consequência do amor", em vez de uma virtude isolada. Uma coisa que parece consistente nas formas contemporâneas de descrever a alegria é que ela é algo mais estável ou mais profundo do que sensações passageiras de felicidade. A alegria é popularmente considerada como uma espécie de flutuabilidade ou equanimidade diante dos desconfortos. É uma disposição amplamente protegida contra altos e baixos. Incluo a alegria como um PEV porque há muitos picos e vales na corrida de montanha. A capacidade de manter o ânimo resiliente, apesar de tudo, definitivamente melhora o desempenho. A alegria me ajuda a escalar montanhas. A alegria me carregou por muito mais quilômetros do que o condicionamento físico.
Perseverança
Este parece um trunfo óbvio. Perseverança é comprometer-se com uma recompensa árdua. Muitas vezes queremos desistir antes de nossas pernas. Se pudermos praticar nos manter em uma tarefa difícil ou permanecer sob um fardo, como Atlas, da mitologia grega, que é levado a segurar as esferas celestes em seus ombros por toda a eternidade, então veremos melhorias em nossa resistência. Isso melhora nosso desempenho.
Resiliência
Resiliência é a virtude de se recuperar. Envolve "
suportar adversidades enquanto as transforma em oportunidades perspicazes de renovação". Correr é difícil. Muitas vezes você faz o seu melhor e falha. Mesmo assim, você tem que aparecer no dia seguinte e treinar. Se você conseguir fazer isso bem, uma ou duas provas ruins não vão atrapalhar toda a temporada.
Humor
Robert Roberts escreve sobre a virtude moral do humor como uma espécie de "
humildade alegre" ou a capacidade de rir de si mesmo. É a percepção das próprias incongruências, a lacuna entre "
o comportamento e o caráter das pessoas e seu telos" (ou meta). A capacidade de rir de si mesmo na ultramaratona é valiosa porque a prova pode ser um tanto absurda. Essa característica em particular foi útil para mim nas pastagens. Consegui rir de mim mesma e da situação de prova mais chuvosa que já enfrentei, e fui poupada do desespero no meio da corrida.
Palavras finais
Existem muitas outras virtudes que melhoram o desempenho. Alguns exemplos são coragem, paciência, gratidão e esperança. A boa notícia é que essas características estão disponíveis para todos os atletas adquirirem. Podemos praticá-las até que se tornem hábitos, da mesma forma que praticamos habilidades físicas no esporte. A boa notícia é que essas características também fazem parte de uma vida próspera fora do esporte. E, em um cenário de prova - caramba! - eles fazem uma grande diferença.