Depois de outro período atribulado, seguido por merecidas férias, volto novamente a enfrentar o papel em branco, na eterna e desesperada tentativa de desenferrujar a mente e de libertar o coração da ira, que aumentou com o tempo a mais nas férias que o infeliz que vos escreve dedicou a ler o raio das manchetes. Ou seja, tempo de leitura e estudo perdidos. Mas houve alguns pontos positivos, além do descanso para o corpo:
- Consegui não ler além das manchetes.
- Conseguimos, Carla e eu, acabar de assistir ao resumo da Brasil Paralelo do livro "12 regras para a vida", de Jordan Peterson. Recomendadíssimo! Já fica como a minha dica do dia. O cara é um gênio e seus conselhos são excelentes, não por si sós, mas também porque são dados por alguém com autoridade pra dá-los, pois "comeu o pão que o diabo amassou". Assistindo ao resumo, dá pra entender perfeitamente o porquê dos esquerdistas o odiarem. Já estou ansioso pra comprar o livro...
- Finalmente consegui, entre um gole de cerveja e um PQP ao ler as manchetes da rede Goebbels e da Folha de Santo Inácio, sair da introdução de "Sobre a ira", de Sêneca. Já deu pra ver que o livro vai mesmo ser o que eu intuitivamente esperava dele: um manual de como sobreviver com coragem nesses tempos difíceis em que vai viver quem pensa diferente do stablishment, quando o socialismo voltar ao poder. Poder político, diga-se de passagem, porque seu poder cultural só aumenta. Duvida? Experimente perder 40 minutos lendo os absurdos perpetrados pela "inprença" tapuia...
Sobre o livro, um detalhe que me chamou a atenção é que Sêneca prega a possibilidade do domínio da razão sobre as emoções, fato já colocado por Jules Payot no livro "
A educação da vontade", que ainda não acabei, mas que creio que mostrará
como aplacar tanto a ira quanto outras emoções negativas.
Talvez a característica que mais me encanta na leitura é a sua capacidade de transportar o leitor para outros mundos, outros tempos, outras realidades. A parte do livro de Sêneca que li nessas férias me levou a um debate entre o filósofo romano e Aristóteles, dois gênios do pensamento pensavam de maneiras bem distintas, quase antagônicas, sobre a ira. Durante a leitura, senti-me por diversas vezes no meio deles...
Aristóteles acreditava que a ira é um sentimento que pode ser útil, por impelir o homem à ação, desde que "tratemo-la como um soldado e não como um general", ou seja, sob controle.
Sêneca discorda do filósofo grego, com a argúcia e a temperança que, no meu modo de ver, são a marca registrada do romano, usando a própria analogia aristotélica para refutá-la: se a ira pode ser domada, não é ira, pois Sêneca considera-a indomável. Por outro lado, se é indomável, não serve de nada, arremata o romano, pois, valendo-se mais uma vez da analogia de Aristóteles, "
um soldado enfurecido é incapaz de obedecer à ordem do general para recuar".
Nesse debate, mesmo eu não tendo o mínimo de estofo intelectual pra isso, digo que penso como Sêneca. E creio que quem já tomou uma fechada no trânsito e ficou cego de raiva, como eu já fiquei, vai pensar da mesma forma. Ou você domina a ira (e outros sentimentos negativos, creio eu) ou ela só irá embora quando quiser.
Pra não deixar você, caro leitor, de mãos 100% abanando, e sim só 99%, no que diz respeito ao tão esperando "como", trago-lhe uma "pista" que consegui vislumbrar: a manifestação da ira se divide em dois momentos: no primeiro instante é realmente incontrolável, por ser um instinto, como o tremor que sentimos no frio.
É no segundo momento que entra a razão, que nos diferencia dos outros animais da Criação, pois é o que nos permite agir conscientemente para aplacar o instinto que emergiu inicialmente. Trocando em miúdos,
é nossa responsabilidade fortalecer nossa razão, a fim de que esta seja capaz de impedir que a ira avance do primeiro para o segundo instante.
Convido-te, caro leitor, a vir avançando comigo na descoberta de como deter a ira, capacidade que será ainda mais fundamental neste segundo semestre, em que teremos que transpor com a máxima sanidade possível a batalha tanto política quanto midiática, cultural, e eu diria que até mesmo espiritual, que já se avizinha. Além de transpor esta guerra, esse domínio da ira pode ajudar nossos estudos. Como?
Se quisermos conhecer nosso adversário, chegará a hora em que teremos que ler Marx, Gramsci, Engels, Marcuse...
Um abraço e até sábado que vem!