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Sobre a ira - primeiras impressões

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sábado, 23 de julho de 2022 - 14:12
Depois de outro período atribulado, seguido por merecidas férias, volto novamente a enfrentar o papel em branco, na eterna e desesperada tentativa de desenferrujar a mente e de libertar o coração da ira, que aumentou com o tempo a mais nas férias que o infeliz que vos escreve dedicou a ler o raio das manchetes. Ou seja, tempo de leitura e estudo perdidos. Mas houve alguns pontos positivos, além do descanso para o corpo:
  1. Consegui não ler além das manchetes.

  2. Conseguimos, Carla e eu, acabar de assistir ao resumo da Brasil Paralelo do livro "12 regras para a vida", de Jordan Peterson. Recomendadíssimo! Já fica como a minha dica do dia. O cara é um gênio e seus conselhos são excelentes, não por si sós, mas também porque são dados por alguém com autoridade pra dá-los, pois "comeu o pão que o diabo amassou". Assistindo ao resumo, dá pra entender perfeitamente o porquê dos esquerdistas o odiarem. Já estou ansioso pra comprar o livro...

  3. Finalmente consegui, entre um gole de cerveja e um PQP ao ler as manchetes da rede Goebbels e da Folha de Santo Inácio, sair da introdução de "Sobre a ira", de Sêneca. Já deu pra ver que o livro vai mesmo ser o que eu intuitivamente esperava dele: um manual de como sobreviver com coragem nesses tempos difíceis em que vai viver quem pensa diferente do stablishment, quando o socialismo voltar ao poder. Poder político, diga-se de passagem, porque seu poder cultural só aumenta. Duvida? Experimente perder 40 minutos lendo os absurdos perpetrados pela "inprença" tapuia...
Sobre o livro, um detalhe que me chamou a atenção é que Sêneca prega a possibilidade do domínio da razão sobre as emoções, fato já colocado por Jules Payot no livro "A educação da vontade", que ainda não acabei, mas que creio que mostrará como aplacar tanto a ira quanto outras emoções negativas.

Talvez a característica que mais me encanta na leitura é a sua capacidade de transportar o leitor para outros mundos, outros tempos, outras realidades. A parte do livro de Sêneca que li nessas férias me levou a um debate entre o filósofo romano e Aristóteles, dois gênios do pensamento pensavam de maneiras bem distintas, quase antagônicas, sobre a ira. Durante a leitura, senti-me por diversas vezes no meio deles...


Aristóteles acreditava que a ira é um sentimento que pode ser útil, por impelir o homem à ação, desde que "tratemo-la como um soldado e não como um general", ou seja, sob controle.

Sêneca discorda do filósofo grego, com a argúcia e a temperança que, no meu modo de ver, são a marca registrada do romano, usando a própria analogia aristotélica para refutá-la: se a ira pode ser domada, não é ira, pois Sêneca considera-a indomável. Por outro lado, se é indomável, não serve de nada, arremata o romano, pois, valendo-se mais uma vez da analogia de Aristóteles, "um soldado enfurecido é incapaz de obedecer à ordem do general para recuar".

Nesse debate, mesmo eu não tendo o mínimo de estofo intelectual pra isso, digo que penso como Sêneca. E creio que quem já tomou uma fechada no trânsito e ficou cego de raiva, como eu já fiquei, vai pensar da mesma forma. Ou você domina a ira (e outros sentimentos negativos, creio eu) ou ela só irá embora quando quiser.

Pra não deixar você, caro leitor, de mãos 100% abanando, e sim só 99%, no que diz respeito ao tão esperando "como", trago-lhe uma "pista" que consegui vislumbrar: a manifestação da ira se divide em dois momentos: no primeiro instante é realmente incontrolável, por ser um instinto, como o tremor que sentimos no frio.

É no segundo momento que entra a razão, que nos diferencia dos outros animais da Criação, pois é o que nos permite agir conscientemente para aplacar o instinto que emergiu inicialmente. Trocando em miúdos, é nossa responsabilidade fortalecer nossa razão, a fim de que esta seja capaz de impedir que a ira avance do primeiro para o segundo instante.

Convido-te, caro leitor, a vir avançando comigo na descoberta de como deter a ira, capacidade que será ainda mais fundamental neste segundo semestre, em que teremos que transpor com a máxima sanidade possível a batalha tanto política quanto midiática, cultural, e eu diria que até mesmo espiritual, que já se avizinha. Além de transpor esta guerra, esse domínio da ira pode ajudar nossos estudos. Como?

Se quisermos conhecer nosso adversário, chegará a hora em que teremos que ler Marx, Gramsci, Engels, Marcuse...

Um abraço e até sábado que vem!

Fonte: Coelho de Programa

Leia mais sobre: sêneca, aristóteles, jordan peterson, sobre a ira, jules payot


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