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Por que não temos como resistir a Eliud Kipchoge

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segunda-feira, 28 de março de 2022 - 18:05
eliud kipchogePor Martin Fritz Huber, para o site OutsideOnline.com
Eliud Kipchoge, o maior maratonista da história, não disputa provas com muita frequência. Desde que venceu a Delhi Half de 2016, ele se concentra exclusivamente na maratona. Ele só compete duas vezes por ano, isto se você contar suas exibições sub-duas horas, que não eram "provas", estritamente falando, mas algo mais na linha de arte performática patrocinada por empresas. Como um campeão de boxe no auge de sua fama, ele tem o luxo de poder escolher suas lutas. As corridas de "ajuste" são para homens inferiores. Kipchoge também completa 38 anos este ano. Os fãs de corrida seriam sábios em saborear cada uma de suas exibições semestrais de maestria atlética.

É por isso que estou ainda mais irritado que, devido ao mau planejamento e dificuldades técnicas, não consegui assistir à transmissão ao vivo de Kipchoge na Maratona de Tóquio do último domingo [N.T: A matéria foi originalmente escrita em 12/03/2022]. De alguma forma, não ter meu apoio não pareceu afetá-lo de forma perceptível. Ele acabou vencendo com folga, em um tempo de duas horas, dois minutos e 40 segundos. Ao fazer isso, ele melhorou seu recorde de maratonas na carreira para 14 vitórias em 16 corridas. Absurdo. Às vezes parece que o mundo da mídia de corrida desistiu de tentar encontrar novas maneiras de contextualizar o domínio de Kipchoge em um evento notoriamente imprevisível. Da mesma forma que ele derruba seus rivais nos últimos estágios da maratona, Kipchoge sobreviveu à nossa capacidade de encontrar novas palavras para exaltar seu brilhantismo. Isso levou ao que meu colega Alex Hutchinson recentemente se referiu como "Fadiga Kipchoge".

Com Tóquio, Kipchoge já venceu quatro das seis World Marathon Majors. Ele afirmou que gostaria de se tornar a primeira pessoa a vencer todas elas, então há alguma expectativa de que ele possa fazer sua tão esperada estreia na Maratona de Nova York em novembro deste ano e em Boston na próxima primavera. Parece ridículo sugerir que o currículo competitivo de Kipchoge está de alguma forma incompleto, mas foi apontado que o maestro ainda não participou de uma maratona "com subidas". Uma vitória em Boston ou Nova York acabaria com isso.

Se Eliud Kipchoge se alinhar na Maratona de Nova York neste outono, certamente vou querer que ele vença, mesmo que ele seja o favorito esmagador e tenha, neste ponto de sua carreira, conquistado mais fama, e, presumivelmente, riqueza, do que qualquer outro corredor de longa distância da história.


O magnetismo de um atleta de uma geração é tanto que não podemos deixar de ser seduzidos. Como disse um perfil do New Yorker de 2018 sobre Mikaela Shiffrin: "Há algo sobre o talento transcendente que faz com que as pessoas torçam por ele, não importando suas lealdades ou o costume de abraçar o azarão. A excelência cria seu próprio clima".

É claro que isto é uma faca de dois gumes. Nosso entusiasmo pelo talento transcendente nos faz sentir irracionalmente decepcionados nos raros momentos em que ele vacila, como inevitavelmente acontecerá. Depois que Simone Biles e Shiffrin tiveram apresentações ruins em suas últimas aparições olímpicas, várias pessoas pareciam desproporcionalmente chateadas. Embora um fã de esportes esteja sempre emocionalmente envolvido no resultado de uma competição trivial, grande parte da reação consternada aos respectivos fracassos de Biles e Shiffrin parecia vir de ter que reconhecer o fato bastante óbvio de que esses deuses do esporte eram mortais, afinal...

Pelo menos foi assim que me senti após a edição especial da Maratona de Londres 2020, onde Kipchoge, derrubado pelo clima atroz e um misterioso bloqueio auditivo, interrompeu sua sequência de dez vitórias consecutivas na maratona e terminou em oitavo lugar. Qualquer pessoa sã esperaria que isso acontecesse mais cedo ou mais tarde e, no entanto, na época, não pude deixar de ver isso como mais uma prova de que, em 2020, tudo estava amaldiçoado.

Há uma diferença, eu acho, entre torcer ativamente pela excelência para se afirmar e obter uma sensação de conforto com isso. Depois de perder a transmissão ao vivo da Maratona de Tóquio no último fim de semana, verifiquei os resultados na manhã seguinte. Quando vi que Kipchoge havia vencido, a emoção que tive foi menos de alegria do que de alívio. Lembro-me de me sentir da mesma forma sempre que Usain Bolt, cujo comportamento chamativo é tão diferente do de Kipchoge, reafirmava o que todos já sabiam: que o maior velocista de todos os tempos era imbatível.

Só que, é claro, ele não era. Na última corrida individual de sua ilustre carreira, Bolt terminou em terceiro nos 100 metros no Campeonato Mundial de Londres. Além disso, ele foi derrotado por Justin Gatlin, um homem cujas suspensões anteriores por doping lhe renderam uma reputação de vilão no mundo das pistas profissionais. Para piorar a situação, na final do revezamento 4x100, Bolt sofreu uma cãibra na perna e não conseguiu finalizar. Embora ninguém pudesse afirmar seriamente que terminar sua ilustre carreira em um DNF [N.T: DNF = Did Not Finish, Não finalizou] manchou seu legado, não se podia deixar de desejar que ele tivesse se aposentado no ano anterior, após sua performance de tripla medalha de ouro nas Olimpíadas do Rio. E nessa época ninguém queria que ele se aposentasse.

Acólitos de Eliud Kipchoge estão em uma armadilha semelhante. As leis do envelhecimento sugeririam que a cada intervalo de meio ano entre as maratonas, as chances de vitória de Kipchoge diminuiriam. Se ele se aposentasse hoje, a ilusão de invencibilidade permaneceria intacta e o acontecido em 2020 em Londres seria esquecido como um acidente bizarro. Mas qual fã de maratona em sã consciência não gostaria de ter a chance de ver Kipchoge rasgando o Central Park ou detonando em Boylston? A única coisa pior do que ver Kipchoge perder é não vê-lo correr.

Fonte: OutsideOnline.com

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