Quem acompanha minimamente as notícias do Brasil deve ter notado como a imprensa vem tentado (com sucesso), aumentar sua influência na cultura no país, iniciativa que se estendeu naturalmente para a política, pois, como já dizia o jornalista Andrew Breitbart, "
a política está rio abaixo da cultura".
Pra você, que percebe isso, mas não sabe bem o porquê, tenho duas notícias, uma má e uma boa: a má é que dada a minha atual condição de espectador chinfrim e ainda desatento do desenrolar dos fatos e do que está por trás deles, também ainda não descobri.
Caso você não tenha parado, enraivecido, de ler no parágrafo anterior, aqui vai a boa notícia: com o pouco que li de mestres como Olavo de Carvalho, Flavio Morgenstern e Cristian Derosa, já consegui captar alguns conceitos que, se analisados isoladamente não fazem muito sentido, são, quando aplicados em conjunto, um poderosíssimo instrumento de manipulação da
opinião pública. Todos esses conceitos têm um forte componente psicológico, e treinar seu reconhecimento vai fazer com que fiquemos cada vez melhores em entender qual o verdadeiro objetivo de determinadas notícias da grande mídia e o porquê dos jornalistas tê-las escrito da forma que as escreveram, principalmente as manchetes.
Aviso também que apesar de representar apenas um engatinhar dos meus estudos sobre o assunto, o texto ficará meio grande, porque o assunto é muito mais complexo do que o que eu apenas vislumbro. Entretanto, dada a importância do tema, creio que vale a pena a leitura até o final.
Uma última observação (prometo!) antes de entrar no assunto propriamente dito: meu objetivo com este pequeno manual é apenas fazer você parar pra pensar sobre até que ponto pode estar sendo levado sem perceber a tomar determinadas posições, sobretudo culturais. E quando falo em cultura, refiro-me muito menos à formação acadêmica do que à transmissão de valores entre nós e nossos filhos, sobrinhos, netos, etc.
Bom, chega de enrolação e vamos lá. Tomemos um Engov (ou dois) e vamos juntos!
A Espiral do Silêncio:
Pra mim é o conceito mais importante, porque é a base de quase, senão de todos os outros. Formulado em 1977 pela cientista política alemã Elisabeth Neumann, depois que observar que o resultado final de eleições alemãs não "batia" com as pesquisas de intenções de voto.
Segundo Neumann, isso acontece (muito raramente, mas acontece...) porque as pessoas têm um desejo enorme de serem aceitas pelo seu meio social. O medo do isolamento, então, faz com que as pessoas adiram, pelo menos publicamente, a ideias das quais às vezes elas discordam frontalmente.
O psicólogo Solomon Asch realizava, já em 1951, um experimento que poderia ter embasado a teoria que a alemã formalizou posteriormente: foram colocadas várias pessoas em uma sala, entre elas, uma "cobaia", vestindo uma camisa vermelha. O palestrante, então, fala que a camisa da cobaia é azul e pergunta para todas as pessoas na sala qual a cor camisa dele. Todos dizem a cor errada, e, no fim, a cobaia concorda com aquelas pessoas, conformando-se com a opinião da maioria.
Pense bem: se alguém é capaz de manipular sua opinião quando o assunto é uma cor de camisa, uma coisa que, caso você não seja daltônico, está vendo corretamente, por que não faria com... sei lá...
a imposição de uma ideologia?
Diferença entre Opinião Pública e opinião pública:
Cristian Derosa, em seu curso Psicologia e a grande mídia, resume a diferenciação entre
Opinião Pública e
opinião pública, definida por Walter Lippman, escritor e (pasmem!) jornalista americano, já em 1922: A
opinião pública é o que realmente a massa pensa, ao passo que a
Opinião Pública é o conjunto de ideias que um grupo de intelectuais, minoritário por definição, considera adequadas à sociedade, difundindo-as através da imprensa e usando largamente a
Espiral do Silêncio para classificá-las como "certas" ou "erradas", tirando da própria sociedade a sua capacidade de discernir por ela mesma.
Qualquer semelhança com "cancelamento" pode não ser mera coincidência...Dissonância cognitiva:
Teoria desenvolvida pelo psicólogo Leon Festinger em 1957, que explica por que as pessoas tomam determinadas atitudes contrárias às suas convicções e depois se forçam a mudar as próprias crenças para justificar as ações tomadas, como, por exemplo, votar num determinado candidato ou adotar uma dada ideologia. Pode-se perceber claramente aquilo que já citei antes, mas que nunca é demais ressaltar: o trabalho em conjunto dos conceitos, formando uma perfeita base doutrinal. Note que a
Espiral do Silêncio atua de maneira tão forte que é capaz de fazer um sujeito em pleno gozo de suas faculdades mentais tomar atitudes diametralmente opostas às suas convicções.
Janela de Overton:
Conceito definido pelo cientista político Joseph P. Overton, que o descreve como um conjunto de opiniões aceitáveis no debate público. A definição dessas etapas varia um pouco de fonte para fonte, mas em linhas gerais, pode-se classificá-las como:
- Inaceitáveis
- Verossímeis
- Neutras
- Prováveis
- Aceitáveis
Até aqui não parece grande coisa. O que torna a Janela um poderoso (e perigoso) instrumento de manipulação é o fato dela ser
móvel, ou seja, permitir a uma ideia poder, com o auxílio de ferramentas como a
Espiral do Silêncio, sair do
inaceitável e passar por todas as etapas até chegar ao
aceitável. Como? A
Opinião Pública "joga" determinadas ideias "ao vento" para a
opinião pública, colocando-a como "polêmicas", nunca como "inaceitáveis", forçando um debate sobre o assunto, pautado sempre pelos famosos "especialistas", "diz leitor", "um fulano que não quis se identificar", arregimentados pela imprensa.
Um exemplo clássico é a discussão sobre a pedofilia, prática até tempos atrás inaceitável e que hoje já é abertamente apresentada por vários setores da
intelligentsia mundial como uma doença. Você duvida de que logo, logo, quem a condena será "cancelado" ou até mesmo punido?
Narrativa:
Define-se
narrativa como o "jeito" de contar uma história. É a tradição, que antigamente era apenas oral e que hoje também é escrita, em cima da qual vai se formando a cultura de uma nação. E é justamente a disputa por qual tradição vai se perpetrar que dá origem à
guerra das narrativas, tão intensificada nos dias de hoje. Afinal de contas, quem controla a
narrativa domina o debate público.
As armas usadas nessa guerra são, como sempre, psicológicas e têm o foco sempre no
sentimento do leitor, nunca na sua
razão. Já parou pra observar a forma como uma manchete de jornal ou site de notícias é claramente moldada para que o leitor formule sua opinião
antes de ler seu conteúdo, que em alguns casos, chega a
contradizer o que está na manchete? Esse molde envolve uma escolha meticulosa de cada palavra do título, adjetivando negativamente uma pessoa ou situação que se queira combater e suavizando as palavras quando o sujeito ou objeto da ação compõem ou são parte da
Opinião Pública.
Isto é levando tanto em consideração que até a ordem das palavras importa. É por isso que
numa manchete de um desafeto da Opinião Pública, o adjetivo vem sempre no início da frase e tem sempre uma carga negativa.Exemplo 1: Dois políticos, A e B, em situações análogas, disseram igualmente coisas inverídicas ou imprecisas. O político A é contra a
Opinião Pública, enquanto B é a favor. É líquido e certo que a manchete do político A será:
Político A mente, ao passo que a manchete do político B será:
Político B se engana/comete gafe/erra/exagera. Percebe a carga negativa infinitamente menor na manchete do político B?
Exemplo 2: Uma pessoa que apoia o político A, do qual a
Opinião Pública não gosta, faz uma coisa ruim. Mesmo que essa pessoa não tenha nenhuma relação de proximidade com o político A, certamente a manchete será:
(adjetivo terminado em)ista, apoiador de político A, pessoa tal faz tal coisa ruim.Vale lembrar que as manchetes são escritas dessa forma também porque a imprensa
sabe que o leitor dificilmente passará da manchete, ou por falta de tempo (meu caso) ou por preguiça (também meu caso,
mea culpa!)
Quer tirar a prova? Não acredite no que estou falando, abra agora qualquer site da grande imprensa e constate isso você mesmo!
Guerra assimétrica:
É meio autoexplicativo o conceito, mas não por isso, menos importante. É uma guerra, hoje em dia não mais no sentido bélico da palavra, onde um lado usa todos os meios, lícitos e ilícitos, para vencê-la e o outro é obrigado pelo lado que detém o poder a "jogar dentro das quatro linhas". Melhor que a minha pálida definição é trazer a de mestre Olavo de Carvalho:
"
Inspirando-se na Arte da Guerra, de Sun Tzu, a Guerra Assimétrica consiste em dar tacitamente a um dos lados beligerantes o direito absoluto de usar todos os meios de ação, por mais vis e criminosos, explorando ao mesmo tempo, como ardil estratégico, compromissos morais e legais que amarram as mãos do adversário".
Finalizando, finalmente!
Pra finalizar este pequeno manual, informo que ele não tem a mínima pretensão de esgotar o vastíssimo assunto, bem como não garanto que meu entendimento sobre ele esteja 100% correto. Meu outro objetivo ao trazê-lo, além de fazer meu leitor parar pra pensar sobre o assunto, despertando nele a vontade de vir ter uma conversa sincera comigo sobre esses assuntos, de modo que possamos sair do "debate" sabendo mais sobre os assuntos debatidos do que quando entramos nele.
Embora a política permeie o texto e embora quem me conheça sabe de que lado estou, tentei ser o mais apartidário possível, pois acredito que, independente da sua corrente política preferida, quem não gostaria de, ao descobrir que está sendo enganado, saber o como e o porquê e tomar providências para parar de sê-lo?
Referências
Um abraço e até a próxima!