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Sono e risco de lesão: Qual a correlação?
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segunda-feira, 18 de outubro de 2021 - 17:57
runner sleepingé o melhor truque de desempenho de todos e tudo o que custa é um terço do seu tempo neste planeta, com margem de duas horas por dia para mais ou para menos. Estou falando do sono, que nos últimos anos se tornou uma obsessão maior ainda entre atletas e outros guerreiros. Esqueça Thomas Edison e suas quatro horas de sono por noite: a marca de um grande atleta hoje em dia é a "alta capacidade de dormir", que é a habilidade de adormecer rápida e facilmente sempre que surge a oportunidade, mesmo se você não estiver com déficit de sono.

Com esse objetivo nobre em mente, eu lhe trago um novo artigo de revisão, publicado na edição deste mês da Sports Medicine, sobre as relações entre sono e lesões no esporte, um tópico sobre o qual escrevi um par de vezes anteriormente. A conclusão geral, com base em 12 estudos prospectivos, é que... ah, espere! Aparentemente, não há "evidências suficientes" para estabelecer uma ligação entre sono insatisfatório e lesões na maioria das populações estudadas. Esse não-achado é um pouco surpreendente e vale a pena nos aprofundarmos sobre ele um pouco mais pelo que nos diz sobre os perigos de ficarmos entusiasmados demais com ajudas de desempenho aparentemente óbvias.

Primeiro aviso: sou um grande fã de dormir. Tenho o fetiche de tentar passar horas suficientes na cama para não ter que acordar virtualmente nunca com um despertador. Menciono isso porque suspeito que muito da recente defesa do sono vem de pessoas como eu, já inclinadas a dormir mais de oito horas por noite e ansiosas por aceitar qualquer evidência que sugira que estão fazendo a coisa certa. Quando leio um artigo sobre algum suposto novo suplemento para melhora de desempenho, minhas antenas ficam em alerta máximo para quaisquer falhas no projeto de pesquisa ou conflitos de interesse. Para algo como dormir, provavelmente serei menos crítico. E eu não sou o único.

Em 2015, escrevi sobre um estudo no Journal of Pediatric Orthopaedics que analisou dados de lesões de 112 atletas em uma escola de segundo grau sofisticada de Los Angeles. Eu incluí este gráfico que mostra uma relação aparente entre o risco de lesão e as horas de sono por noite relatadas pela própria pessoa:


(Alex Hutchinson)

A associação parece bem clara aqui: atletas que dormiam oito ou mais horas por noite tinham muito menos probabilidade de se lesionar. Mas será que a falta de sono realmente causa lesões? Isso é mais complicado de dizer.


Na nova revisão da Sports Medicine, de autoria de um grupo da Towson University liderado por Devon Dobrosielski, alguns mecanismos causais diferentes são discutidos. Foi demonstrado que a privação de sono suprime a produção de testosterona e hormônio do crescimento e aumenta os níveis de cortisol, o que pode enfraquecer os músculos e deixá-los mais suscetíveis a lesões. A sonolência também pode diminuir o tempo de reação e levar a mais lapsos de atenção, o que pode aumentar o risco de torcer o tornozelo ou levar uma tacada de hockey no rosto. Mas também há muitas possibilidades não causais: pode ser simplesmente que os atletas que obedecem à regra "luzes apagadas às 22h" também estejam mais propensos a evitar conscienciosamente jogadas arriscadas e aumentos repentinos no volume de treinamento. Ou um fator isolado como overtraining pode perturbar o sono e aumentar o risco de lesões.

Estou especialmente interessado neste tópico porque aquele estudo de segundo grau em Los Angeles fez uma aparição controversa no best-seller do cientista do sono Matthew Walker de 2017, Why We Sleep. Ele até colocou o mesmo gráfico em seu livro, com uma diferença crucial. Como observou um blogueiro chamado Alexey Guzey, ele deixou de fora a barra de cinco horas de sono, fazendo parecer que havia um aumento constante e inexorável do risco de lesões com menos horas de sono. Walker supostamente alterou o gráfico nas edições subsequentes do livro.

Há uma discussão interessante a ser feita aqui sobre o nível "certo" de simplificação. A comunicação científica eficaz sempre envolve a remoção de detalhes estranhos, e esse processo de remoção é inerentemente subjetivo. Você pode argumentar que saber o que deixar de fora sem distorcer a mensagem é a principal habilidade do jornalismo científico. E para ser claro, acho que Walker errou nesse equilíbrio em seu gráfico original. Mas não acho que seja necessariamente porque ele está no bolso das Big Sleep [NT: grandes empresas ligadas ao sono] ou algo nefasto assim. Em vez disso, parece-me mais um exemplo do que eu estava falando acima: nossa tendência de abraçar sem críticas a pesquisa do sono positiva, porque parece tão natural e inofensiva e, em certo sentido, moralmente correta: se formos bons meninos e meninas e irmos para a cama na hora certa, a fada da lesão vai nos deixar em paz.

Mas voltando à revisão de Dobrosielski: ele e seus colegas encontraram 12 estudos que atendiam aos seus padrões de inclusão. Todos lidavam com atletas adultos e todos eram prospectivos, o que significa que eles tiveram alguma avaliação inicial da quantidade ou duração do sono seguida por um período durante o qual monitoraram as lesões. Seis dos estudos não encontraram nenhuma associação significativa entre sono e lesões. Os outros seis encontraram, mas os estudos eram tão diferentes que não havia nenhum padrão geral sobre quais tipos de lesões ou atletas ou padrões de sono eram mais importantes.

é importante notar que uma revisão anterior de 2019 analisou as evidências em adolescentes em vez de atletas adultos. Nesse estudo, eles concluíram que adolescentes que tinham cronicamente pouco sono (uma definição que variava entre os estudos, mas normalmente significava dormir menos de oito horas por noite) tinham 58% mais probabilidade de sofrer uma lesão esportiva. Essa estimativa, porém, foi baseada em apenas três estudos e ainda não resolve a diferença entre correlação e causalidade.

No final, continuo a acreditar que dormir é bom para nós e que as pessoas que insistem que só "precisam" de cinco ou seis horas por noite estão se enganando. Mas a verdade, como me disse o cientista do sono da equipe olímpica canadense Charles Samuels alguns anos atrás, é que realmente não há muitas evidências para apoiar essas suposições. A ligação entre o tempo de sono e o risco de lesões, em particular, parece cada vez mais instável para mim, com base na nova análise. Nesta era de auto otimização implacável, não posso deixar de pensar em uma das outras pepitas de sabedoria de Samuels: não há pontos de bônus por ter um sono melhor do que o normal. O tempo na cama é valioso, mas não é uma panaceia mágica. Se você perder a hora de dormir de vez em quando, não perca o sono por causa disso.
Traduzido do site OutSideOnLine.com

Fonte: OutSideOnLine.com

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